A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E OS DIREITOS HUMANOS NO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO

Autores

  • Tiago dos Santos Arão Universidade Federal de Pelotas image/svg+xml
  • Bruno de Castro Lino Universidade Federal de Santa Maria image/svg+xml
  • Fernanda Quadros da Silva IBRA
  • Diego Canabarro Pires Universidade Federal de Santa Maria image/svg+xml
  • Samuel Pacheco Rosa Universidade Norte do Paraná image/svg+xml
  • Décio Sudati Vieira Universidade Federal de Santa Maria image/svg+xml

Palavras-chave:

Execução Penal. Dignidade Humana. Sistema Prisional.

Resumo

O princípio da dignidade da pessoa humana constitui um dos pilares fundantes do Estado Democrático de Direito brasileiro, conforme preceitua o artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal de 1988. Este postulado normativo estabelece que a atuação estatal deve, obrigatoriamente, salvaguardar a integridade física, moral e psicológica do indivíduo, independentemente de sua condição jurídica. No ecossistema do sistema penal, tal princípio deixa de ser apenas uma diretriz ética para tornar-se um dever objetivo de cuidado e fiscalização.

A execução penal representa, talvez, o campo de maior tensão para a aplicabilidade desses direitos. A privação da liberdade, sanção imposta pelo Estado, deve restringir-se estritamente ao direito de locomoção, não autorizando a supressão da condição de sujeito de direitos do apenado. Pelo contrário, ao assumir a custódia do indivíduo, o Estado avoca para si a responsabilidade integral por sua incolumidade, transformando o ambiente prisional em um termômetro da própria democracia.

Todavia, a realidade do sistema penitenciário brasileiro revela um abismo entre o texto constitucional e a prática cotidiana. O cenário é marcado pelo que o Supremo Tribunal Federal já caracterizou como um "Estado de Coisas Inconstitucional" (ADPF 347), onde a superlotação crônica, a precariedade estrutural das unidades, a escassez de políticas de reintegração social e a influência de grupos criminosos dificultam a garantia de direitos básicos e a própria segurança da operação penitenciária.

Esta análise não se pretende um estudo meramente teórico ou externo; ela é fruto da reflexão de Policiais Penais que atuam diretamente no "chão da galeria". A perspectiva aqui adotada carrega, portanto, os vieses e as cores de quem vivencia o sistema por dentro, o que confere ao trabalho uma dupla dimensão:

O primeiro é o que chamamos de Viés da Segurança vs. Assistencialismo: Como operadores da segurança pública, os autores enfrentam o dilema diário entre a manutenção da ordem disciplinar e a garantia da assistência humanitária. O olhar está condicionado pela necessidade de vigilância e controle, mas também pela percepção direta das falhas do Estado que reverberam tanto na vida do preso quanto na saúde mental do servidor.

Não obstante, é preciso mencionar A Vivência do Enclausuramento: Existe um viés de proximidade. O Policial Penal, embora não esteja privado de sua liberdade jurídica, compartilha o ambiente de confinamento, a insalubridade e a tensão constante do sistema. Essa "submersão" permite identificar nuances da violação de direitos que escapam aos olhos de pesquisadores externos. A reflexão aqui apresentada é permeada pelo pragmatismo profissional. O viés é o da busca por soluções que sejam exequíveis dentro de uma realidade de escassez de recursos, onde a dignidade da pessoa humana não é apenas um conceito abstrato, mas uma ferramenta de estabilização do ambiente de trabalho.

Diante desse cenário complexo, este trabalho busca analisar criticamente o funcionamento do sistema prisional brasileiro, confrontando as garantias fundamentais com a realidade operativa, sob a ótica de quem possui o dever legal e o desafio ético de mediar o castigo e a dignidade.

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza qualitativa e exploratória, estruturado a partir de uma abordagem dialética que confronta a dogmática jurídica com a realidade operativa do sistema prisional brasileiro. A substância deste trabalho reside na convergência entre o levantamento teórico-normativo e a vivência profissional dos autores na condição de Policiais Penais.

Para fundamentar a análise, a investigação dividiu-se em duas frentes complementares:

  1. Pesquisa Bibliográfica: Realizou-se uma revisão da literatura clássica e contemporânea, abrangendo a Filosofia do Direito (especialmente a matriz kantiana da dignidade humana) e a Criminologia Crítica (com foco em Alessandro Baratta e Michel Foucault). Esta base teórica permitiu a construção de um referencial crítico sobre o poder punitivo e a seletividade penal.
  2. Pesquisa Documental e Estatística: Foram analisados documentos oficiais e marcos jurídicos fundamentais, tais como a Constituição Federal de 1988, a Lei de Execução Penal (LEP) e o acórdão da ADPF 347 (STF). A base quantitativa foi extraída de relatórios institucionais da Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com recorte temporal focado nos dados de 2024.

O diferencial metodológico deste trabalho reside na observação participante assistemática decorrente da atividade profissional dos pesquisadores. Diferente de uma análise meramente externa, a interpretação dos dados aqui apresentada é mediada pelo "lugar de fala" do Policial Penal.

Dessa forma, a metodologia adota um caráter reflexivo, onde o objeto de estudo (o sistema prisional) é analisado por sujeitos que compõem a estrutura estatal de custódia. Isso permitiu identificar o que a doutrina denomina como "hiato entre a norma e a realidade", possibilitando uma análise crítica sobre como a dignidade da pessoa humana é tensionada no cotidiano das unidades frente a desafios como a superlotação e a presença de facções criminosas.

A análise dos dados seguiu o método analítico-dedutivo: partiu-se das premissas universais dos Direitos Humanos e da Dignidade da Pessoa Humana para compreender as particularidades da crise penitenciária brasileira. As conclusões foram estruturadas de forma a propor uma síntese entre a necessidade de segurança pública (atribuição constitucional da Polícia Penal) e o dever de assistência e ressocialização do apenado.

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Biografia do Autor

  • Tiago dos Santos Arão, Universidade Federal de Pelotas

    Especialista em Gestão Prisional, formado em Letras/Espanhol. Universidade Federal de Pelotas / UFPel.

  • Bruno de Castro Lino, Universidade Federal de Santa Maria

    Mestrado em Comunicação Midiática, Universidade Federal de Santa Maria. 

  • Fernanda Quadros da Silva, IBRA

    Pós-graduação em Gestão Pública e Formação Pedagógica em Ciências Sociais pela Faculdade IBRA.

  • Diego Canabarro Pires, Universidade Federal de Santa Maria

    Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. 

  • Samuel Pacheco Rosa, Universidade Norte do Paraná

    Processos Gerenciais, Universidade Norte do Paraná - UNOPAR.

  • Décio Sudati Vieira, Universidade Federal de Santa Maria

    Educação Física, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM

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Publicado

2026-04-30

Como Citar

Arão, T. dos S., Lino, B. de C., Silva, F. Q. da, Pires, D. C., Rosa, S. P., & Vieira, D. S. (2026). A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E OS DIREITOS HUMANOS NO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 6(11), 15-61. https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/25736

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