“MULHERES DE TARJA”: VIVÊNCIAS DE MULHERES COM O USO DE PSICOTRÓPICOS EM UM GRUPO DE GESTÃO AUTÔNOMA DE MEDICAÇÃO
DOI:
https://doi.org/10.51891/rease.v12i7.28241Palavras-chave:
Estratégia Saúde da Família. Saúde Mental. Medicalização. Vivências.Resumo
A Reforma Psiquiátrica Brasileira propõe a construção de novas práticas e contextos de cuidado em saúde mental fundamentados na liberdade, em oposição à lógica medicalizante hegemônica. Essa lógica tem contribuído para a ampliação dos diagnósticos de transtornos mentais e para o uso crescente de psicofármacos, configurando o fenômeno da medicalização da vida. Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento de tecnologias de cuidado que favoreçam a desmedicalização, o empoderamento e a autonomia de pessoas em sofrimento psíquico. Este estudo objetivou investigar os limites e as potencialidades da Gestão Autônoma da Medicação (GAM) como estratégia de cuidado e de enfrentamento à medicalização no contexto da ESF em um município do interior do Rio Grande do Norte, bem como compreender as vivências das participantes em relação ao uso de psicotrópicos e os significados atribuídos a esses medicamentos em suas trajetórias de vida e cuidado. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida por meio da pesquisa-ação. Os procedimentos metodológicos incluíram a realização de um grupo de intervenção GAM ao longo de oito meses, a observação participante e a construção de narrativas a partir das experiências vivenciadas no grupo. Como instrumentos de produção de dados, utilizaram-se diários de campo e gravações em áudio. Os resultados evidenciaram que a medicalização atravessa as práticas profissionais e se configura como uma das principais respostas às demandas apresentadas pelas mulheres atendidas na ESF, que frequentemente utilizam psicofármacos como forma de silenciamento dos sofrimentos e de seus determinantes sociais. As narrativas das participantes revelaram experiências marcadas pela naturalização do uso prolongado desses medicamentos, pela centralidade da prescrição médica nos itinerários terapêuticos e pela busca de alívio para sofrimentos produzidos em contextos de vulnerabilidade social e afetiva. Tais vivências evidenciam a complexidade da relação estabelecida com os psicotrópicos, os quais assumem simultaneamente funções de cuidado, controle e adaptação às adversidades cotidianas.
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