ENTRE MUROS E TERRITÓRIOS DE PARNAÍBA (PI): ARTE EDUCAÇÃO NOS ESPAÇOS FORMAIS E NÃO FORMAIS SOB O OLHAR DE ESTUDANTES DE PEDAGOGIA DA UFDPAR

Autores

  • Osmar Rufino Braga Universidade Federal do Delta do Parnaíba

Palavras-chave:

Arte-Educação. Educação Não Formal. Território. Práticas Comunitárias. Formação Humana.

Resumo


É válido reconhecer, desde já, que este livro nasce do entrelaçamento entre experiência, formação e território. Estamos falando daquilo que se aprende no encontro com o outro, com a outra, com a comunidade, com a cultura local, e também no gesto de devolver ao mundo, em forma de reflexão, aquilo que nele nos atravessa, que nos encanta, mas também aquilo que nos interpela e nos convida à investigação, à análise crítico-reflexiva.
As páginas que seguem são fruto de um semestre de formação que se constituiu não apenas como atividade acadêmica, mas como movimento investigativo e sensível, no qual estudantes do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, nas experiências e vivências no contexto da Componente Curricular Arte-Educação, no segundo semestre de 2025, se dispuseram a olhar para a arte-educação em Parnaíba (PI) como campo vivo, plural e profundamente enraizado nas práticas comunitárias e escolares da cidade.
Este livro escolhe, como horizonte, compreender a arte não como um adereço curricular, muito menos como técnica alheia à vida, mas como força formadora, capaz de suscitar pertencimento, crítica, autonomia e transformação social. Assim, os estudos aqui reunidos assumem a arte-educação como dimensão que ultrapassa fronteiras: ela se faz entre o formal e o não formal, entre a escola e a rua, entre a instituição e o território, entre o sujeito e sua comunidade. E é justamente nesse atravessamento que se descortinam práticas inspiradoras, desafios estruturais, reinvenções criativas, modos singulares de fazer da arte um dispositivo pedagógico e emancipatório. Mas também se desnuda como o estado brasileiro, que tem como ente público mais próximo da população o município, a gestão municipal, compreende e investe na arte-educação. Convido você, leitor e leitora, a perceber essa realidade nos trabalhos das autoras e dos autores aqui organizados.
O primeiro capítulo abre este percurso ao investigar, junto à ONG Amigos Solidários, como as práticas artísticas em um contexto comunitário, mesmo diante de limitações materiais, se tornam lugar de afirmação identitária e de fortalecimento de vínculos. O trabalho revela que, ali, a arte opera como gesto de acolhimento e de mobilização social, possibilitando que crianças e mães encontrem, na expressividade artística, um espaço para reelaborar suas experiências, construir autoestima e participar de um tecido comunitário que se firma justamente pela potência de criar.
O segundo capítulo se desloca ao Casarão da Esperanza, outro espaço não formal de ensino, e amplia o debate ao mostrar como a arte-educação se torna linguagem de resistência, de diálogo e de emancipação. As análises, inspiradas em Freire, Read, Dewey, Bakhtin e Ana Mae, revelam que, naquele contexto, a arte não apenas sensibiliza: ela convoca à participação, promove a consciência cidadã e convida os sujeitos a reinventarem seus modos de ler e agir no mundo. A criatividade, longe de ser uma habilidade isolada, emerge como prática política — um modo de existir em comunidade.
O terceiro capítulo desloca o olhar para a escola, examinando, no SESC – Centro Educacional Elizeu Martins, como o ensino de artes se reinventa na ausência do professor especialista. O estudo evidencia que, quando o docente assume uma postura investigativa, dialógica e aberta ao novo, a arte se expande para além da técnica, tornando-se experiência interdisciplinar articulada ao sociointeracionismo, à cultura local e à vida cotidiana das crianças. Nesse cenário, o professor polivalente se torna mediador de sentidos, e a sala de aula se transforma em espaço de criação e de leitura crítica do mundo, reafirmando, à maneira freiriana, a educação como prática de liberdade.
O quarto capítulo nos leva a acompanhar o ensino de arte em uma escola municipal de Parnaíba, mostrando que a valorização da cultura discente pode se tornar eixo estruturante da prática pedagógica. Mesmo diante da ausência de um planejamento curricular sistematizado, a professora pesquisada cria estratégias sensíveis para aproximar arte, comunidade e cotidiano. Valoriza saberes locais, convoca os estudantes ao diálogo e amplia a noção de arte para incluir suas memórias, narrativas e modos de ver o mundo. A criatividade docente, aqui, atua como força de resistência e de afirmação: é no gesto inventivo da professora que a cultura da comunidade encontra espaço de reverberação e dignidade.
O quinto capítulo nos convida a entrar na experiência e nas práticas de arte da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Parnaíba, onde ela mostra sua força mobilizadora e produtora de autonomia, dignidade e cidadania. O texto das autoras e do autor desvela, como o fazer artístico, entre o teatro, a dança e o papel machê, tece novas formas de existência para os assistidos e assistidas. Sob as luzes de Freire, Ferreiro e Montessori, a pesquisa revela uma pedagogia do encontro, onde o engajamento da equipe e o acolhimento das mães em seus saberes artesanais transformam a instituição em um território de resistência poética e inclusão autêntica.
No sexto capítulo, as autoras se debruçam sobre o chão da Escola Frei Rogério de Milão para investigar a arte como eixo de formação humana e sensível. Nesta parte, o texto desvela, com lucidez e poesia, os contrastes entre os desafios estruturais, como a carência de formação específica e recursos didáticos, e a resiliência de práticas que buscam romper as fronteiras disciplinares. O capítulo chama a atenção para o modo como a escola assume a interdisciplinaridade como princípio orientador do trabalho pedagógico com a arte e como esta se articular aos projetos mais amplos da escola, especialmente o projeto de leitura e escrita, que envolve todas as disciplinas.
Assim, cada capítulo, à sua maneira, reafirma que a arte-educação, no campo das ONGs, escolas públicas, instituições comunitárias ou centros educacionais — é sempre atravessada por um profundo movimento de subjetivação e de construção cultural. A arte não apenas transforma: ela revela. Revela a cidade, revela o sujeito, revela a comunidade, revela o que pode ser reinventado quando educação e sensibilidade se encontram.
Este livro, portanto, não se apresenta como uma lista de trabalhos, fruto de visitas às escolas, ONGs e comunidades e diagnósticos isoladas, mas como uma tessitura plural de olhares. Os textos aqui reunidos evidenciam que a arte, quando compreendida como experiência viva e situada, torna-se fundamento ético e político da formação humana, convocando-nos a pensar a educação não apenas pelo que ela transmite, mas pelo que ela desperta, provoca e cria.
Que esta obra, nascida de experiências concretas e de práticas vividas, possa inspirar educadoras, educadores, pesquisadoras, estudantes e todas as pessoas que acreditam que a arte é uma porta para a transformação social e também para o encontro sensível consigo e com o outro, com a outra, com a comunidade.
Osmar Rufino Braga

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Publicado

2026-06-15

Como Citar

Braga, O. R. (2026). ENTRE MUROS E TERRITÓRIOS DE PARNAÍBA (PI): ARTE EDUCAÇÃO NOS ESPAÇOS FORMAIS E NÃO FORMAIS SOB O OLHAR DE ESTUDANTES DE PEDAGOGIA DA UFDPAR. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 12–170. Recuperado de https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/24739

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E-books

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